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Factos, apenas…

No dia 13 de Abril de 2018 a minha Mãe, teve um acidente vascular cerebral profundo! Conduzida de imediato para o hospital, a “via verde” só disponível no Hospital de S. José, de nada lhe valeu pois, como os médicos afirmaram sem hesitação, os cento e um anos não permitiam qualquer tratamento dos indicados para este tipo de acidentes.

Durante umas longas e dolorosas quatro semanas acompanhámos diariamente a evolução do estado de saúde daquela Senhora que com a sua persistência e vontade de viver nos tinha transmitido a sensação de que a morte nunca a tocaria.

Foi penoso para nós assistirmos impotentes ao agravamento do estado de saúde da Mãe que com todo o lado esquerdo paralisado e impossibilitada de deglutir tinha que ser alimentada por sonda. Com o decorrer dos dias a frequência com que se tornava necessário recorrer a aspirações foi aumentando. A agravar tudo, tínhamos a certeza de que a nossa querida Mãe se encontrava consciente da sua própria situação e que com a fala muito afetada tentava tantas vezes em vão comunicar connosco. Ela lutava desesperadamente pela vida e quando conseguia por vezes até sorria! Respondia com toda a lógica às perguntas que lhe fazíamos o que nos emocionava e provocava as inevitáveis lágrimas tantas vezes disfarçadas a correr.

Nessas quatro semanas pude observar o empenho e o profissionalismo de um conjunto de profissionais de saúde nas mãos dos quais se encontrava a minha Mãe. Observei a dedicação e entrega dos mesmos aos doentes, a enorme paciência e compreensão que tinham quando aflitos lhes solicitávamos mais e mais atenção com a nossa Mãe.

Impressionaram-me a tal ponto que numa certa tarde, tendo já eu consciência que a vida da minha Mãe se encontrava “presa por um fio”, não resisti e num informal papel branco resolvi escrever-lhes umas palavras de admiração e incitamento para continuarem a trabalhar do modo como tínhamos presenciado. Recordo que terei escrito qualquer coisa parecida com o que a seguir transcrevo: Num País onde a crítica fácil e leviana a quase tudo impera, não posso deixar de relevar o vosso elevado profissionalismo, a vossa dedicação e carinho com os doentes.

Peguei no papel e entreguei-o à enfermeira que nesse dia estava de serviço. Agradeci-lhe enquanto tentava conter as lágrimas.

Vê-se assim, que tanto eu como os meus Irmãos não tínhamos até ao momento (creio que 12 de Maio) qualquer crítica negativa a fazer. Nem tudo “eram rosas”, mas o balanço que fazíamos apresentava um saldo altamente positivo no que respeitava aos cuidados prestados.

Aos poucos fui-me apercebendo que o estado de saúde da minha Mãe não tinha melhoras expectáveis e que o mais provável era que acontecesse aquilo que menos queríamos.

No dia 14 de Maio por volta das 17 h o meu Irmão foi confrontado por uma médica que nos criticava de forma veemente por não termos tratado de dar seguimento à alta clínica, alta essa que aliás nunca nos foi comunicada pela responsável do Serviço. O argumento, prontamente questionado, era de que a minha Mãe se encontrava estável. Contudo, era evidente para nós o agravamento do estado de saúde, até porque a nossa Mãe tinha deixado de ter qualquer forma de comunicação connosco, parecendo-nos estar a entrar em coma sendo visíveis as maiores dificuldades respiratórias e o esgotamento geral.

Na realidade nós tínhamos tentado arranjar uma solução para o caso da Mãe poder sair com vida do Hospital. Foram esforços que esbarraram na recusa de aceitação por parte de alguns em aceitar uma doente naquele estado e no facto de não existirem lugares nas Unidades de Cuidados Continuados. A única solução que parecia disponível, implicava desde o início despesas que rondariam os oito mil euros. Ainda assim o que mais nos perturbava era o facto de não acreditarmos que fosse onde fosse a minha Mãe tivesse cuidados como os que lhe eram prestados ali.

Percebemos que aquela médica, acabada de chegar de férias, tinha instruções para libertar, a qualquer preço, camas daquela unidade hospitalar. Ficámos indignados e não escondemos a nossa indignação. Aquela médica entrava em “contramão” com tudo aquilo a que o restante pessoal nos tinha habituado!

A minha Mãe faleceu às 20 h e 30 minutos desse mesmo dia! A que estabilidade se referiria aquela médica? Porquê a conversa absurda da alta clínica a três horas da sua morte? Será que a médica não viu o estado de saúde da minha Mãe?

Aqui ficam os factos. Sobre eles não pretendo fazer qualquer comentário. Deixo-os à reflexão de todos aqueles que nos últimos tempos têm sido pródigos em sentirem-se donos da verdade.

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