Está aqui
Inicio > Cultura > Castro da Amoreira – O Património Histórico de Odivelas Esquecido

Castro da Amoreira – O Património Histórico de Odivelas Esquecido

Odivelas – Castro da Amoreira
Numa altura em que se tenta passar a ideia que o outro túmulo que está no Mosteiro de S.Dinis, para além do túmulo do Rei, é de um Infante, quando é da infanta Dona Maria Afonso (como prova abundantemente a Doutora Máxima Vaz) , em que se insiste em chamar Quinta do Espírito Santo ao que está mais que provado que é a Quinta do Espanhol e em que apenas têm olhos para o Mosteiro, deixando ao esquecimento todo o restante Património Histórico, achámos por bem chamar a Vossa atenção para o Castro da Amoreira, situado no cimo da Serra da Amoreira – Ramada.

Nas folhas seguintes poderá consultar alguns textos de há muitos anos atrás, da Doutora Maria Máxima Vaz e do Dr. Vitor Adrião bem como um link para o vídeo gravado no parque de merendas no cimo da Serra da Amoreira, bem ao lado dos terrenos privados onde fica situado o Castro da Amoreira.

Sendo o terreno onde fica situado o Castro da Amoreira privado, para além da compra do dito terreno do Castro pelo Município de Odivelas existe a possibilidade de uma qualquer AUGI que tenha de entregar uma determinada área de terreno à CMO poder comprar esse mesmo terreno como contrapartida.

Vídeo gravado em 20 de Julho de 2010, com a participação do Presidente da J.F. da Ramada Francisco Bartolomeu, o Dr. Vitor Adrião, o Dr. Oliveira Dias e a Historiadora Doutora Máxima Vaz – grande referência da história da região saloia. https://youtu.be/nM58QZC6D5Q?list=PLH0mvKMRj1cG5aps2c7ivQ629l_4OqYfH ou: http://bit.ly/2jnPGFx

Texto que acompanhava a publicação do vídeo em 20/Julho/2010:

O odivelas.com  reuniu uma equipa de especialistas e foi ao Castro da Serra da Amoreira conversar sobre a situação em que se encontra este monumento histórico.
Dois historiadores/investigadores (Máxima Vaz e Vitor Adrião), um politólogo especialista em direito administrativo (Oliveira Dias) e um autarca (Francisco Bartolomeu) reuniram-se no alto da serra e durante 1 hora discorreram sobre a situação existente, sobre o que é necessário ser feito e o valor histórico/económico do local.
Do trabalho efetuado aqui fica um testemunho para utilização pública.
Trata-se de uma situação que, embora conhecida, tem merecido poucas conclusões correndo-se o risco sério de, à semelhança de outro casos conhecidos, se perder um valor histórico de grande significado, delapidado a favor de interesses privados.
A ganância e a ignorância são más conselheiras.
Quando se trata de cegueira voluntária escondida atrás da ignorância ainda pior.
Não é um caso novo, mas é um caso importante e entendemos chegada altura de o estudar com profundidade.
Foi o que fizemos e disso damos testemunho. Pelo menos desconhecimento não haverá.

Texto do Dr. Vitor Manuel Adrião (Professor e investigador) sobre o Castro da Amoreira

Para falar da Freguesia da Ramada, devo iniciar obrigatoriamente pelo seu antigo Presidente, sr. Ilídio Ferreira, que foi quem disponibilizou todos os meios tendo pessoalmente me conduzido à estação arqueológica no topo da Serra da Amoreira, no actual Concelho de Odivelas, e que desde há muito era foco das atenções dos estudiosos do assunto, nas áreas histórica, arqueológica, paleontológica e antropológica.
Com essa finalidade, publiquei este estudo pela primeira vez na Revista Loures Magazine, Ano VI – N.º 21 – Janeiro/Março de 1994, precisamente com o título O Castro da Amoreira.
A Serra da Amoreira ou Monte da Bica – que não existe, visto ser um topónimo inventado para efeitos de geodesia; o marco trigonométrico BICA tomou, como é costume, o nome da povoação mais próxima, neste caso, a Ponte da Bica – tem merecido várias referências pelos especialistas da área, atendendo ao seu especial relevo e constituição geológica de complexidade basáltica.
Entre 1910 e 1912, o professor de Medicina, e também arqueólogo, Joaquim Fontes, descobriu a estação proto-histórica da Serra da Amoreira e aí recolheu materiais que atribuiu ao período do Paleolítico Inferior (Mustierense). E entre 1912 e 1915, o professor de História de Arte, igualmente arqueólogo, Vergílio Correia, também fez investigações no local, tendo recolhido novas peças desse mesmo período, as quais estão mencionadas em O Arqueólogo Português 17, pág. 61, Lisboa, 1912, no estudo do autor portando o título: O Paleolítico em Portugal. Estado actual do seu estudo.
Por sua vez, o geólogo e arqueólogo O. da Veiga Ferreira, que participou nas escavações na diáclase de Salemas e na gruta do Correio-Mor, vem a ser o único a referir a descoberta dum fragmento de cerâmica tipo “campaniforme” (Época do Cobre) na Serra da Amoreira, em condições e datas que se desconhecem (in Guia Descritivo da Sala de Arqueologia. Museu dos Serviços Geológicos de Portugal, pág. 21, Lisboa, 1982).
Em Janeiro de 1983, um estudante de nome Carlos Valverde, morador em Odivelas, quando recolhia terra negra para vasos com flores junto ao depósito de água no topo da Serra da Amoreira, ocasionalmente desenterrou um machado de pedra polida. Deu notícia deste achado ao seu professor de História a quem mostrou a peça, assim como aos alunos presentes. Entre estes contava-se Ana Paula Rodrigues da Silva (funcionária da Câmara Municipal de Loures), que informou ao seu conhecido dr. João Ludgero da descoberta.
Assim, houve motivo para uma breve exploração do local, realizada em Julho de 1985, pelos referidos dr. João Ludgero, Ana Paula da Silva, Carlos Valverde e o motorista sr. Armando. Recolheram-se então vários fragmentos de cerâmica de fabrico manual, na mesma cova onde fora achado o machado.
Aquando da inauguração do Museu Municipal de Loures, em 28 de Dezembro de 1985, o sr. José Lino Valverde, pai do supradito estudante Carlos Valverde, cedeu a título de empréstimo o referido machado para ser exposto no sector de Arqueologia, o que foi feito. Em Fevereiro de 1986 retirou-o do Museu, só restando a sua memória numa fotografia a preto e branco.
Em 20 de Abril de 1986, o professor Gustavo Marques (a quem muitíssimo se deve a divulgação desta estação arqueológica), acompanhado pelos dr. Renato Monteiro, Pedro M. Pereira e João Marques, fizeram outra prospecção no local e recolheram mais cerâmicas do mesmo tipo, além de resíduos de fabrico de instrumentos de sílex. Na ocasião foram observados muros envolventes – possíveis restos de muralhas.
Estudando o espólio recolhido pelo dr. João Ludgero e por si mesmo, Gustavo Marques concluiu estar perante mais uma estação da Cultura de Alpiarça (Época do Ferro inicial), sobre a qual já escrevera dois importantes trabalhos: Arqueologia de Alpiarça. As Estações Representadas no Museu do Instituto de Antropologia do Porto. Porto, 1972. E Aspectos da Proto-História do Território Português. I – Definição e Distribuição Geográfica da Cultura de Alpiarça (Idade do Ferro). Porto, 1974.
Em 1987 e na mesma linha, Gustavo Marques escreverá um novo trabalho, desta feita precisa e exclusivamente dedicado à Serra da Amoreira: Aspectos da Proto-História do Território Português. III – Castelo da Amoreira (Odivelas, Loures). Nele expõe um breve catálogo do material recolhido na supradita estação, desde o Paleolítico, passando o Neolítico até à Alpiarça ou do Ferro, ilustrado com gravuras das peças recolhidas.
Face a tantas provas cabais, inegáveis, nos meados de 1993 o Presidente da Junta de Freguesia da Ramada, Ilídio Ferreira, intercedeu junto do IPPAR (Instituto Português do Património Arqueológico e Arquitectónico), ex-IPPC, solicitando uma equipa de arqueólogos capacitados a avaliar da importância da estação. Durante várias semanas ela esteve aí, escavando e peneirando o solo, tendo descoberto vários fragmentos de cerâmica tipo alpiarça.
Nessa ocasião, foi posta em dúvida a antiguidade dos amuralhamentos e que fosse um castelo, antes e talvez, quanto muito, um acampamento. Concordo parcialmente.
A datação atribuída à Cultura Alpiarça ou do início da Idade do Ferro, ronda a passagem do século IV para o V a.C., sendo este último o período da principal ocupação da Amoreira pelos primitivos Lusitanos da Estremadura, os Alpiarças, assim chamados por mero convencionalismo antropológico, os quais na vasta região saloia repartiram-se em diversos ramos, como esse dos Galérios que habitaram a região limítrofe de Sintra, Negrais e Lousa.
Por esse motivo é que se deduz ser do século V a.C. (Época do Ferro) a data de origem dos restos do pressuposto castro amoreirense, cujas muralhas serão dessa altura. Eu mesmo dei com o trecho de uma muralha em muitíssimo bom estado no meio do mato, e no morro próximo, ombreando com a Serra da Amoreira, com o resto de uma calçada típica desse período, em excelente condição, além do que pressupus serem restos de habitações. Tudo, repito, sugerindo ser da mesma época, atestando pelos materiais e disposição envolventes.
Um acampamento acastelado, porque amuralhado, para mim terá sido esta estação durante largo tempo, uma magnífica atalaia senhoriando, vigiando e protegendo a população agrária sediada em Casais, neste Concelho. Quando havia o perigo eminente dos ataques de tribos inimigas, certamente o “castelo alpiarça” servia de refúgio seguro para os modestos casais, de cuja presença proto-histórica foram encontrados inúmeros vestígios intra-muralhas.
A importância do local ressalta da esplêndida descrição do Padre Luís Cardoso, de que transcrevo breve excerto quanto à sua situação geográfica (in Diccionario Geografico… 1, págs. 457-458. Lisboa, 1747):
AMOREIRA. Serra na Provincia da Estremadura, Termo da Cidade de Lisboa, limites da Freguesia de Odivellas: no cume faz seu plano, ou coroa, que de Norte a Sul tem trezentos palmos, e do Nascente a Poente seiscentos. Vai descendo em ladeiras, que em circumferencia terá três quartos de legua. Tem este cabeço, e toda a mais serra muita pedra negra de alvenaria; e naõ produz outro mato, ou plantas mais que fétos. Nas suas ladeiras para a parte do Norte se tiraõ pedrarias finas de excelente qualidade, como as que se tiraõ do Lugar de Trigache, aonde daremos mais especifica noticia dellas. Dahi principia o rife das pedreiras da Paradella, pertencentes à Freguesia de Loures, e vay findar junto ao Casal da quinta da Pipa da mesma Freguesia.
Igualmente Raúl Proença (in Guia de Portugal, I, pág. 469, Lisboa, 1924) alude ao deslumbrante panorama estratégico da Serra da Amoreira, com cujo pressuposto fortificado alpiarça há semelhantes indesmentíveis em Lisboa (Castelo), St.ª Eufêmia (Sintra), Socorro (Torres Vedras) e em Pena do Barro (Torres Vedras).
Com a cultura Alpiarça nasce a arte do Ferro – a metalurgia. O fogo torna-se o elemento central da vida social: os alimentos passam a ser assados e a cozer-se as peças de barro, dando-lhes robustez antes desconhecida. Desenvolve-se a cultura pictórica e arquitectónica, os primeiros indícios de religiosidade ordenada pelo culto astrolátrico, o respeito à família e ao clã, a devoção aos antepassados e aos mortos, dando a estes sepultura.
Será José Leite de Vasconcelos o primeiro a apontar as sepulturas de Alpiarça, no Ribatejo, e a chamar ao Lusitano estremenho Alpiarça, o proto-histórico homem do campo simultaneamente religioso e artista, criador dos bem conhecidos vasos campaniformes ou caliciformes, lembrando enormes tulipas, belamente ornados de desenhos geométricos (in Antigos Povos da Nossa Terra, por António Carlos Leal da Silva pág. 39, Lisboa, 1967).
O próprio termo alpiarça, proveniente do ligure-ibérico alaba, “Grande Mãe “, indicia quer o nascituro culto telúrico à Magna Mater através da Lua, quer, afinal, o desenvolvimento da agricultura por meio de ferramentas de ferro, e cuja implosão maior terá sido nesta região saloia onde ainda hoje é a sua principal actividade, recolhendo-se da “Grande Mãe” Terra – a Divina Alpiarça – quanto nela se semeia e quanto dela se colhe, para usufruto das suas humanas criaturas. Alpiarça é, pois, o povo consagrado àquele divino luzeiro nocturno, Alaba, fiel companheira do Astro-Rei, Alabo, dador do Fogo Vital que, na Ramada, irá encontrar o seu expoente na arte dos soldadores metalúrgicos, cujos instrumentos figuram, aliás, no seu mais que digníssimo Brasão autárquico enobrecendo, a par do “Castelo” da Amoreira, esta alpiarcíssima Freguesia.
____________________________________________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.

Texto da Doutora Maria Máxima Vaz com o título “O Castelo da Amoreira”

Não estranhem o termo “castelo”. Eu não ousaria, mas a pessoa que me ensinou tudo o que sei sobre o castro, é assim que fala dele.
Na década de 80 esteve entre nós um arqueólogo –Gustavo Marques – de quem pouco falamos, mas com quem muito aprendemos.
Nasceu em Lisboa em 1929, era arquitecto de profissão, mas desenvolveu projectos de investigação no domínio da Antropologia e principalmente da Arqueologia. Trabalhou para várias autarquias no levantamento do património cultural e, nesse âmbito, participou no inventário e caracterização do núcleo antigo de Odivelas, na década de 80.
Acompanhei parte do seu trabalho na quinta da Memória, quando fez prospecção no arruinado edifício de habitação a que eu chamei Casa do Arcebispo, por me parecer na altura que não poderia chamar-lhe palácio. Não sei onde param os trabalhos feitos pelo Arquitecto Gustavo Marques, em Odivelas, mas duma coisa eu tenho a certeza – seriam para nós uma informação segura e muito útil.
Foi ele que identificou a estação arqueológica do Casal do Carrasco, na altura no solo de Odivelas, hoje na freguesia da Ramada e a estação neolítica do Pedrógão, em Caneças.
É dele o estudo que trago ao conhecimento dos leitores, sobre o castro da serra da Amoreira e que, felizmente, foi publicado, embora poucos o conheçam.
Vou transcrevê-lo sem comentários e com o respeito que merecem os trabalhos sérios e rigorosos, que nos trazem informações seguras e contribuem para um melhor conhecimento da nossa história. É para compensar algumas “estórias” sem fundamento, que têm vindo a público nos últimos anos, induzindo em erro os leitores desprevenidos, que as tomam como história.
Escreveu ele o seguinte:
“A Serra da Amoreira tem merecido várias referências, atendendo ao seu especial relevo e constituição geológica.
A partir de 1912, Vergílio Correia faz menção de materiais paleolíticos recolhidos por Joaquim Fontes e por ele próprio, na encosta do Monte da Bica (designação geodésica do local).
Há uma única referência assinalando o achado de um fragmento de cerâmica do tipo “campaniforme” (época do Cobre), em condições e data que se desconhecem.
Os indícios existentes eram manifestamente insuficientes e vagos, para permitirem a exacta caracterização duma jazida arqueológica.
Em Janeiro de 1983, o estudante Carlos Valverde, residente em Odivelas, encontrou ocasionalmente um machado polido, nas terras negras para “vasos” que preenchiam uma ampla escavação resultante da sua extracção. O machado chegou ao conhecimento do Dr. Ludgero Gonçalves, que promoveu uma visita ao local, em Julho de 1985, tendo na ocasião recolhido vários fragmentos de cerâmica que depositou no Museu Municipal de Loures. Ali permaneceram até que, em Abril de 1986, o autor, ao verificar o conteúdo dos sacos que continham esses materiais, identificou mais uma estação da Cultura de Alpiarça (época do ferro inicial).
Esta verificação originou algumas visitas à estação, sempre esclarecedoras; nas terras restantes da escavação para a sua extracção recolheram-se mais fragmentos de cerâmica, numerosos sílices paleolíticos e de épocas posteriores. Também se fez o reconhecimento de possíveis muralhas do povoado.
Destas circunstâncias se deu a necessária informação à Câmara Municipal (5 de Maio de 86); posteriormente foi oficiada ao IPPC (24 de Junho de 86), acompanhada de um pedido de classificação do monumento e duma proposta de delimitação da área de protecção.
Com a ajuda dos jovens da OTL-86, procedeu-se à recolha, por peneiração, dos materiais revolvidos que se encontravam nas terras subsistentes da escavação para a extracção das “terras negras”.
É o resultado destas acções que ora se apresenta, em notícia preliminar.
Catálogo
Do conjunto de materiais recolhidos, escolhemos as seguintes peças, por serem mais representativas das culturas reconhecidas. O espaço desta notícia não consente mais”.
Por não poder apresentar as imagens, interrompo aqui o trabalho do arqueólogo e vou apenas informar que nos apresenta o desenho de cada peça, o nome do instrumento que era naquele tempo e o material de que era feito, ordenando-os cronologicamente:
5 raspadores do período Paleolítico;
8 peças (várias utilizações) do Neolítico/Época do Cobre
5 fragmentos de peças de cerâmica da época – Ferro Alpiarça.
Retomemos o trabalho do autor:
“Conclusões e votos
A estação arqueológica do Castelo da Amoreira, pela área que ocupa, pela forma e disposição dos seus amuralhados e espólio recolhido, situa-se no âmbito da Cultura de Alpiarça. A datação atribuída a esta cultura, ronda a passagem do século IV para o V a. C.
Constitui um dos maiores castros reconhecidos da época do Ferro, no Sul do nosso território. Tem semelhanças indesmentíveis com outros povoados da mesma cultura, que se localizam na sua proximidade. É o caso do povoado da mesma época reconhecido no claustro da Sé de Lisboa e provável ocupação no Castelo, no povoado de Santa Eufémia (Sintra), no grandioso castro do Socorro (Torres Vedras), na Pena do Barro (Torres Vedras)…., todo um horizonte cultural que corresponde em data, aos clássicos “lusitanos” da nossa proto-história.
Esta magnífica atalaia, senhoreava, vigiava e protegia a numerosa população sediada nos casais agrícolas, que já foram reconhecidos no aro do concelho (Marzagão, Abrunheira….), e que formavam a base do povoamento destes chãos riquíssimos para a agricultura, tal como ainda acontece hoje. No castelo se refugiavam em caso de perigo eminente. No castelo se adensam os vestígios do trabalho desses modestos casais.
Fazemos votos para que a sensibilização actual para os assuntos da defesa, conservação e estudo do património cultural, persista e se desenvolva com entusiasmo aumentado.
(…)
Estamos empenhados na valorização destas formas de cultura menos vistosas, mas fundamentais para uma mais apurada consciência da nossa cultura regional e da sua personalidade própria, colectiva.”
Curvo-me perante tão apurado saber, tanta precisão, rigor e eficácia, e lamento que os seus votos tenham esbarrado com ouvidos “moucos”. De 1987 para cá, que se fez?
O leitor dar-me-à razão, quando digo que não tenho comentários. Só tenho que aprender.
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, quem tem humildade para aprender, aprenda!!!
Ah! Só mais uma nota breve – o Arqueólogo Gustavo Marques não contava “estórias.”
Maria Máxima Vaz

_________________________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.

Texto da Doutora Maria Máxima Vaz com o título “Um Miradouro com largos horizontes – O Castro da Amoreira”

Do cimo da “serra da Amoreira”, a vista panorâmica é magnífica. O concelho de Odivelas dispõe de locais suficientes para se permitir pensar num equipamento turístico barato: um percurso de miradouros, sendo o principal o alto da Amoreira, que, ao interesse paisagístico, junta o interesse histórico – foi um castro dos inícios da Idade do Ferro.
Em abono do que afirmo, trago ao conhecimento dos leitores as opiniões e o saber daqueles que são as nossas fontes de conhecimento.
Começarei por um extracto da Corografia Portuguesa do Padre Luís Cardoso:
“AMOREIRA. Serra na Província da Estremadura, Termo de Lisboa, limites da Freguesia de Odivelas: no cume faz seu plano ou coroa, que de Norte a Sul tem trezentos palmos, e de Nascente a Poente seiscentos. Vai descendo em ladeiras, que em circunferência terá três quartos de Légua. Tem este cabeço, e toda a mais serra muita pedra negra de alvenaria não produz outro mato, ou plantas mais que fetos. Nas suas ladeiras para a parte do Norte se tiram pedrarias finas de excelente qualidade, como as que se tiram do lugar de Trigache, aonde daremos mais específica notícia delas. Daí principia o rife das pedrarias da Paradela, pertencentes à freguesia de Loures, e vai findar
junto ao Casal da quinta da Pipa da mesma freguesia.
Do alto deste monte se descobrem para a parte do Poente o convento de Nossa Senhora da Pena de Monges de S. Jerónimo, e a maior parte da serra de Sintra, e o mar largo adiante da mesma serra, e parte do seu Termo, e o da Vila de Cascais até Nossa Senhora do Cabo, e por todas as partes todo o Termo da cidade de Lisboa, e para a parte do Sul quase todo o rio da mesma cidade, e todas as povoações e oiteiros da banda dalém do Tejo, Cacilhas, e todos os mais lugares circunvizinhos, e tudo o mais que a vista pode alcançar até Azeitão, Sesimbra, Palmela e Setúbal. Vê-se também do mesmo cabeço o castelo da cidade de Lisboa, o convento de Nossa Senhora da Graça dos religiosos de Santo Agostinho da mesma cidade, as torres do Real Convento de S. Vicente de Fora, a igreja de Nossa Senhora do Monte, o convento de Nossa Senhora da Penha de França, Trindade, S. Roque, S. Pedro de Alcântara, e parte da mesma cidade; como também o Campo Grande, o Campo Pequeno, Lumiar, Paço do Lumiar, Carnide, Convento de S. João da Cruz de Carmelitas descalços, todo o lugar de Odivelas e a maior parte da sua freguesia.
Para a parte do Nascente descobre uma boa porção da freguesia de Loures, toda a estrada da Cabeça de Montachique, todo o lugar de Frielas, com o seu braço de mar, e marinhas de sal, o lugar de Santo António do Tojal, Via-Longa, e seus olivais, Alverca e Vila Franca, e vários montes do Termo de Torres Vedras. E a parte do Norte descobre o lugar de Caneças, o monte da serra de Montemor, que lhe fica mais levantado, a ermida de Nossa Senhora da Saúde, que fica no alto deste monte, e todo o lugar de Montemor, tudo pertencente à freguesia de Loures.
Não tem esta serra povoação alguma, mais que o pequeno lugar da Amoreira, que da serra toma o nome, e lhe fica para o Norte”.
Reconheçam que é um desafio à nossa curiosidade. Quem ficará indiferente? Quem não sentirá o apelo de uma visita ao local? Por mim, não vejo a hora de lá ir, para contar todos os sítios que dali ainda (?) se avistam.
É uma descrição exemplar, que nos prende da primeira à última linha, e que nos pesa ver terminada. A abundância de informações, a linguagem do tempo em que cada palavra é o termo mais expressivo, fazem deste texto uma obra prima que nos leva a percorrer todo o horizonte que dali se alcança.
É um trabalho exaustivo, cujo registo é produto da observação do autor e no qual podemos confiar.
Das muitas informações destaco, pelo interesse que tem para nós, que dali se podia avistar “ Frielas, com o seu braço de mar e marinhas de sal”, o que vem confirmar a existência dos esteiros na várzea, pelo menos até ao século XVIII, uma vez que este trabalho foi editado em 1747.
Registo ainda a afirmação que também se avista Vialonga “e seus olivais”, o que vem ao encontro da tese de Von Thunen, confirmada, no caso português, pelo estudo dos Professores Jorge Gaspar e Maria José Lagos Trindade, que já trouxe ao conhecimento dos leitores em artigos aqui publicados.
Cada vez fica mais claro, para mim, que o que possibilitava a navegação nesta várzea eram os esteiros, que uns dizem “do Tejo”, outros “do mar”. Tanto faz, o que sabemos é que a água era salgada e que dela obtínhamos o sal, uma das riquezas da várzea.
Ficamos ainda a saber que “nas suas ladeiras do Norte “ havia pedreiras donde se extraíam pedras de boa qualidade, e que ali principiavam as famosas pedreiras da Paradela.
Aproveito para lembrar, que foi a estas pedreiras que o frade António dos Santos foi pedir a pedra para construir o monumento do Senhor Roubado e que os cabouqueiros lha cederam gratuitamente .( Mais informo, que a Condessa de S. Tiago lhe deu autorização para se instalar, enquanto durassem as obras, numa das casas que possuía na Quinta da Memória, e cujas casas nobres eram para estadia da família, nos períodos em que aqui permaneciam.
Contrariamente à tese errada de que este edifício nunca teria sido concluído, e a que ficámos a dever as grades, portas e varandas ferrugentas e janelas inacabadas, estas casas nobres, não só foram concluídas como foram habitadas por muitos anos… as varandas eram de cantaria, a ferrugem não marcava ali presença e todas as janelas foram acabadas).
E depois deste parêntesis, voltemos à descrição do Padre Luís Cardoso. Parece-nos a nós, que não haverá nada a acrescentar. Mas não será assim aos olhos de um Arqueólogo, que até chega a ver realidades ocultas no subsolo.
Dêmos a palavra ao Arquitecto Gustavo Marques:
“ A esta exemplar descrição, unicamente acrescentamos que, do alto, se avistam os “castros” de Lisboa, Santa Eufémia (Sintra), Castelo de Sintra, Monumento do Monge (Sintra), Socorro (Torres Vedras), um conjunto notável de estações arqueológicas da mesma época da última ocupação do Castelo da Amoreira. A coroar a acrópole do monte, e marcando socalcos pela sua encosta, observam-se vultosos alinhamentos concêntricos de grandes pedras negras de basalto, que parecem constituir arruinados panos de muralhas castrejas”.
A visão do Arqueólogo, fazia aqui falta. A observação e o saber, edificam o conhecimento.
Proponho aos poderes públicos que vejam da possibilidade de se traçar na serra da Amoreira, “O CAMINHO DOS ARQUEÓLOGOS”, à semelhança do que se fez na cidade de Heidelberg, na Alemanha, com o Caminho dos Filósofos. Parece-me fácil e de custos mínimos e seria um atractivo que nenhuma outra cidade tem e que nós podemos facilmente ter, porque temos a sorte de viver numa terra com História. E já agora, sugiro, às Escolas, que têm aqui nomes muito adequados. O nosso trunfo é a nossa História. É o único recurso que ainda não esgotámos. Não desconsiderem a História e a cultura, contando “estórias” que lhe deformam o rosto. O que valoriza e distingue Odivelas é a sua História.
O poeta tem inteiramente razão quando diz: “terrível humilhação é a ignorância”!….Eu acrescentarei – que dá cabo de tudo e é pornográfica!!!
Maria Máxima Vaz

_________________________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.

Top