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A xávega, a pesca da Caparica

Junho 25th, 2017 | by José Maria Pignatelli
A xávega, a pesca da Caparica
Odisseias
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A pesca é uma espécie de arte ancestral que se pratica um pouco por todo o Mundo. Foi e é um meio de subsistência de milhões de pessoas. Hoje, entre os países mais desenvolvidos é uma indústria sofisticada cheia de desafios a carecer de fórmulas de sustentabilidade que é como quem diz pretende-se proteger algumas espécies piscícolas para garantir capturas futuras e controlar o desperdício. Mais recentemente despertámos para a criação em cativeiro.

Mas há métodos que perduram no tempo, colocam à prova a resistência de homens e mulheres, muitas vezes transformam a vida em momentos de angústia e sustentam famílias há décadas. Fomos à Caparica ver como se pesca com a arte xávega: Juntámo-nos à família da Dulce e do Eduardo Marques, aos pescadores do Neptuno. Ouvimos histórias antigas de quando esta pesca dependia exclusivamente da força braçal de homens e mulheres. Também percebemos que a pesca já teve piores e melhores dias, que dá para sobreviver, mas que importa ter alternativas como uma banca de peixe no mercado da vila que até se reconhece como das mais sugestivas.

Arte xávega é uma pesca artesanal comum em algumas praias portuguesas, porventura mais emblemática na Costa da Caparica. Há quem lhe chame arrasto de costa. Mas não é bem assim, observando a técnica e o modelo. A xalavar – o saco cónico de rede emalhada – é lançado entre os dois e dois mil e quinhentos metros da praia, mais ou menos milha e meia náutica, portanto ainda em áreas com fundos mais arenosos.

Esta arte é associada à pesca de cerco: Utiliza um cabo com alguns flutuadores, com mais de 3 milhas náuticas (mais de 5.500 metros) que tem uma espécie de saco em rede emalhada em forma cónica – a xalavar – a meio do seu comprimento. O saco é lançado a quase milha e meia do areal da praia por um barco, sendo a recolha feita por tracção mecânica pela utilização de dois tractores. Trata-se de uma espécie de arrasto de costa ainda que o saco de rede não rasteje propriamente no fundo. Esta arte captura espécies piscícolas mais comuns, como o carapau, a cavala, a sardinha… Também raia, lula, sargo e outros.

Explicando: O xalavar é colocado no mar, a milha e meia (mais de 2.700 metros) por uma embarcação, que vai desenrolando a metade do cabo, ficando uma das pontas amarrada a um dos dois tratores intervenientes, enquanto os pescadores efetuam o cerco aos cardumes de peixe em alto mar, retornando à praia para desenrolar a outra metade do cabo para a sua extremidade ser enganchada no segundo tractor.

A xávega conclui-se com a chegada a terra do xalavar com a pescaria.

Até ao início da década de 70 do século passado, a recolha da xalavar era feita por tracção animal – uma junta de bois – e força de braços, sendo muito exigente do ponto de vista físico, em qualquer circunstância sobretudo em condições climáticas mais agrestes, apesar de ser uma actividade sazonal.

Arte Xávega persiste na Costa da Caparica (Praia da Saúde), Fonte da Telha e na Praia da Vagueira, mas foi uma pesca comum em outros locais como a Praia de Mira, Praia da Vieira e Praia do Pedrógão.

A recolha mecânica do xalavar iniciou-se na Costa da Caparica.

A palavra xávega advém do étimo árabe xábaka, que significa rede.

por José Maria Pignatelli em Revista Festa

Durante anos, a xalavar era puxada pela força de braços dos pescadores como era o caso da Costa da Caparica que ficavam na praia. Nas praias do Norte utilizavam-se juntas de bois. Só a partir da década de 70 – primeiro na Costa da Caparica -, se começou a utilizar a tracção motriz por via da utilização dos tractores. Hoje, a maior dificuldade é a eventual substituição dos tractores por razões que se prendem com o excessivo equipamento electrónico daqueles veículos

As capturas da pesca com arte xávega são basicamente de espécies piscícolas porventura mais pequenas. O tractor é o maior aliado dos pescadores. A revista Festa fotografou durante um dia da faina do Neptuno de Dulce e Eduardo Marques. Vão ao mar lanças a rede – a xalavar – por quatro ou cinco vezes durante o dia. Há que trabalhar nos melhores meses, fora das intempéries que lançam o perigo, sobretudo à entrada e saída da rebentação que pode transformar-se numa enorme dor de cabeça. Vencesse a rebentação a poder da força de braços com a utilização de remos que funcionam como estabilizadores e leme já que, mais recentemente, conta-se com a ajuda de um motor auxiliar.

As gaivotas conhecem o Neptuno. Sabem que lhes espera uma refeição cada vez que os pescadores devolvem ao mar o peixe que não se pode comercializar

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